quinta-feira, outubro 21, 2004

CHEGANDO POR AQUI

A CHAVE

Minha mãe tinha a chave de casa. Ela sempre levava a chave presa numa daquelas argolinhas, enroscada no zíper da bolsa. Meu pai nunca teve a chave de casa... É que a minha mãe sempre chegava em casa antes, porque ela não trabalhava. Não que ela não trabalhasse assim, digo, de não fazer nada. Ela fazia crochê... Ou era tricô? Você sabe a diferença de um e outro? Ah, claro, são as agulhas né? Mas um dia minha mãe chegou mais tarde em casa. Não, não foi por maldade, antes que você pense mal da minha mãe. Eu estava em casa sim. Mas a porta lá de casa é daquelas que só abre com a chave, sabe? Daí o motivo de eu não ter aberto a porta pro meu pai. Só que ele não sabe pular a janela, e além do mais ele achou mais fácil sair pelo bairro procurando a minha mãe. É, pelo bairro. É que a minha mãe sempre morou no bairro, nem o centro conhecia. Então meu pai achou que seria mais fácil procurar a minha mãe do que pular a janela, até porque ele estava de calça jeans. Mas isto tudo ele falou gritando, para que eu pudesse escutar através da porta fechada.

Tem gente que passa a vida inteira procurando alguma coisa, né? É, eu também acho profundo, foi o pastor que falou na TV, naqueles programas que passam de madrugada, em qual canal que foi mesmo? Ah, deixa pra lá. Mas a vida do meu pai foi assim, a partir daquele dia, imagino eu. Digo imagino porque imagino mesmo, porque eu nunca mais falei com ele. Também nunca mais falei com a minha mãe, mas isto nem me faz muita falta. É que eu sempre fui muito mais meu pai, sabe. É, eu sei que você deve ter notado... Identificação, né? Por isso que eu também não tinha chave nem bolsa para pendurar ela. Bem diferente da minha mãe, né?

Mas para encurtar a história, é por isso que eu moro sozinho já faz uns quatro anos. Acho que um dia eles podem voltar, mas certamente não vai ser hoje... É, eu tenho este pressentimento.

Então... Você quer dar uma passada lá em casa? Não, nem se preocupe. Você nem precisa pular a janela. Ó, é segredo hein!!! Só para você que eu conto: na verdade, a porta estava aberta naquela dia. Eu só tava brincando com meu pai... Engraçado né?? Por isso que eu nunca mais precisei da minha mãe, nem da chave...
Quer dar uma passada lá em casa? Não! É, já tarda mesmo. Com sono é? Tudo bem. Anota meu telefone. Tá sem caneta? Eu peço pro garçom... Ei, espera um pouco. Olha, se você mudar de idéia, meu nome tá na lista... Opa, peraí: será que nós já nos apresentamos?

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