domingo, outubro 24, 2004

DEBATES NA TV

DEBATE NA CARA DE QUEM?
Luiz Andrioli

Temos aí uma semana para o segundo turno. Aqui no Paraná quatro cidades continuam em campanha. Me atenho à Curitiba, onde vemos uma acirrada disputa entre PT (Ângelo Vanhoni) e PSDB (Beto Richa). Por legenda, algo parecido com São Paulo. Dentro destes últimos dias, alguns debates ainda devem distrair (ou seria melhor dizer “focar”) a atenção do eleitor. De minha parte, digo que estou cansado de bancadas, apresentador imparcial, terno e gravata, vinhetas, seriedade, sisudez... Quero algo além! Vamos fazer da política um grande entretenimento. Não estamos na tal “Sociedade do Espetáculo”? Incorporemos a idéia ao pleito, ora pois! Esta é a minha bandeira! Este é o meu voto!

***

É interessante notar que um candidato só entra num debate cujas regras ele possa escolher. Tudo bem. Se eles só brincam no campinho que conhecem, o que podemos fazer? Só nos resta a arquibancada por detrás do morro mesmo. Mas quando se fala em segundo turno, isto tem um poder de veto. Ou seja, se não escolho as regras, não participo. E o debate pode não acontecer.

Caro eleitor, não se iluda. O debate que te é oferecido é o melhor dos mundos possíveis, parafraseando Cândido, de Voltaire. Possível sob o ponto de vista deles.

Como eu gostaria de ver ao menos um encontro em que eles viessem sem as armaduras (ops... ternos!) bem cortadas com gravatas combinando com o fundo do cenário.

Que tal um debate ao ar livre? Ah que grande estrago este ventinho faria em seus cabelos pré-moldados, hein?

Um cenário cercado por espelhos. Não, não se trata de feitiche... Assim as câmeras não esconderiam os bastidores, que neste jogo tem mais técnico do que jogador. Política também é jogo de títeres.

Como exercício de cidadania, coloco aqui três idéias de formato para debates. Não faço questão de receber jetom, royalties, comissão ou coisa que me traga dividendos pelo uso destas. São livres. Estarei em casa com um saco de pipoca e uma latinha gelada contando pontos e tentando fazer da minha opção algo diferente do voto nulo.

Trocadalho do Carilho

Eu quero um prefeito bem-humorado. Mas não um humorzinho simpático construído pela turma-que-sabe-muito-como-agradar. Quero piada! Quero ser surpreendido numa cerimônia de entrega de uma obra com uma tirada sobre o casaco verde do secretário de turismo, coisa pesada. Algo como:

Candidato 1: o tema é Fome Zero. Com um carregamento de dez quilos de arroz, sete de feijão e cinco de carne. Você acha que dá pra vinte comer?

Candidato 2: depende. Até porque setembro chove, não é? Mas falando sobre Responsabilidade Fiscal: a título de doação para o patrimônio público. O nobre candidato poderia me dizer se aceitaria quatro bicicletas na caixa, caso eu te desse também uma montada?

Aqui os candidatos mostrariam que bom humor por bom humor, vote no Didi Mocó pra prefeito e no Mr. Bean para vice. Em campanha de verdade, todo e qualquer sorriso busca fazer com mais dentes à mostra a pior imagem possível do adversário. É tudo na base do “Faça humor, faça a guerra”.

Cultura anos 80

Ambos os candidatos aqui da capital das araucárias estão ali pela faixa dos quarentão. Pois me interessa muito saber o que eles estavam fazendo há uns vinte anos, de que maneira eles enxergavam o mundo, quais filmes assistiram, programas de TV, discos... Enfim, que tipo de jovens foram. Impossível que alguém que fosse super-legal na faixa dos vinte não tenha virado uma boa pessoa no início dos “enta”. Imagino um animador de auditório como Celso Portioli. Se alguém quiser um toque mais intelectual despojado, Cazé Pessanha. Sugestões de perguntas:

- Qual era a cor do suspensório do Daniel Azulay?

Tudo bem, sei que eles não eram mais crianças, mas vale para dar um susto... Exercício de memória afetiva, praticamente...

- Você preferia escutar a turma do Kid Vinil (Magazine) ou era mais dado ao povo do Yahoo cantando “Amar, assim, é nunca dizer adeus”.

Este seria o ponto alto do debate. Ou seja: você era um cara irreverente, usava All Star vermelho, calças verdes, cabelo com descolorex ou era um mela-cueca que ficava lá nas festinhas esperando pela seqüência de lentas?

- Qual o ano em que a Magda Cotrofe posou para a Playboy?

Regra absoluta: não será aceita como resposta a seguinte frase: eu só leio as reportagens.

Neste formato daríamos asas para o passado privado se tornar público. Mães entrariam falando de suas coleções de gibis. Primos falariam dos torneios de bafo com as figurinhas das Balas Zequinha... Enfim, tudo o que pessoas normais sempre fizeram, mas para eles, atividades em nome do bem comum e que já mostravam os ideais políticos.

Tele-Ketch

“Hoje o duelo é de Titãs. De um lado, o peso do sindicalismo. Ele vem grande, vem com a estrela que comanda uma nação. De outro, a força tucana. Ele vem falando sereno, com a marca históóóóóóóóórica (algo como Galvão em Ronaaaaaldo) de um sobrenome”. Soa o gongo. “Olha lá, é impressionante! O lutador da estrela amarela não bate sozinho. Não basta ser amargo, ele quer azedar a luta. O juiz não vê! Ele esfrega limão nos olhos do oponente!”. Alguém na torcida grita “É limão transgênico?”. Em resposta o oponente grita buscando suas raízes paternas. “Pai, porque me abandonastes?”. E a rixa continua... “São os gigaaaaaaantes do ringue”, anuncia o locutor.

Quem venceria o debate? Aquele que soubesse que não basta ser o mais forte. As vezes é mais importante combinar a jogada com o adversário e cumprir o protocolo até soar o gongo.





sábado, outubro 23, 2004

ESTAMOS AINDA EM FASE DE TESTES

Salve simpatia...

Ainda tô naquela fase de conhecer os serviços aqui da casa. Sabe como é, né? Analisa o garçom, dá aquela olhada na louça por entre a luz, espia a cozinha... Enquanto isto, nada de produção nova. Segue mais um da lavra antiga. A inspiração poderia estar neste sábado de chuva em Curitiba...

Cordiais saudações






DIAS DE CHUVA

No grupo Escolar Santa Rosa
Não tinha pátio coberto para os dias de chuva
Quando chovia as crianças ficavam sem recreação
Marcelo, cabelo crespo castanho, gostava dos dias de chuva
Ao acordar contava as nuvens
“Pai, qual é a previsão do tempo?”
Melissa, menina das bochechas rosadas, tinha uma certa atração por dias chuvosos
Ouvia atentamente o que a tia Francisca falava
No dia da pátria
Marcelo desenhou numa folha de caderno a bandeira do Brasil
E entregou para Melissa
Ela devolveu o desenho
Com um coração que desenhou atrás
Nos dias de chuva, as crianças ficavam tristes
E sem recreação
Melissa e Marcelo, olhavam para a janela, sorrindo
A chuva caindo na beira da calha
Um dia um trovão assustou a todos
de imediato Melissa segurou a mão de Marcelo
Que sorriu enrubescido
Tia Francisco olhava os dois tão atentamente saudosa
Pensando que passara a vida inteira
Procurando alguém que com ela olhasse a chuva cair na calha.

quinta-feira, outubro 21, 2004

CHEGANDO POR AQUI

A CHAVE

Minha mãe tinha a chave de casa. Ela sempre levava a chave presa numa daquelas argolinhas, enroscada no zíper da bolsa. Meu pai nunca teve a chave de casa... É que a minha mãe sempre chegava em casa antes, porque ela não trabalhava. Não que ela não trabalhasse assim, digo, de não fazer nada. Ela fazia crochê... Ou era tricô? Você sabe a diferença de um e outro? Ah, claro, são as agulhas né? Mas um dia minha mãe chegou mais tarde em casa. Não, não foi por maldade, antes que você pense mal da minha mãe. Eu estava em casa sim. Mas a porta lá de casa é daquelas que só abre com a chave, sabe? Daí o motivo de eu não ter aberto a porta pro meu pai. Só que ele não sabe pular a janela, e além do mais ele achou mais fácil sair pelo bairro procurando a minha mãe. É, pelo bairro. É que a minha mãe sempre morou no bairro, nem o centro conhecia. Então meu pai achou que seria mais fácil procurar a minha mãe do que pular a janela, até porque ele estava de calça jeans. Mas isto tudo ele falou gritando, para que eu pudesse escutar através da porta fechada.

Tem gente que passa a vida inteira procurando alguma coisa, né? É, eu também acho profundo, foi o pastor que falou na TV, naqueles programas que passam de madrugada, em qual canal que foi mesmo? Ah, deixa pra lá. Mas a vida do meu pai foi assim, a partir daquele dia, imagino eu. Digo imagino porque imagino mesmo, porque eu nunca mais falei com ele. Também nunca mais falei com a minha mãe, mas isto nem me faz muita falta. É que eu sempre fui muito mais meu pai, sabe. É, eu sei que você deve ter notado... Identificação, né? Por isso que eu também não tinha chave nem bolsa para pendurar ela. Bem diferente da minha mãe, né?

Mas para encurtar a história, é por isso que eu moro sozinho já faz uns quatro anos. Acho que um dia eles podem voltar, mas certamente não vai ser hoje... É, eu tenho este pressentimento.

Então... Você quer dar uma passada lá em casa? Não, nem se preocupe. Você nem precisa pular a janela. Ó, é segredo hein!!! Só para você que eu conto: na verdade, a porta estava aberta naquela dia. Eu só tava brincando com meu pai... Engraçado né?? Por isso que eu nunca mais precisei da minha mãe, nem da chave...
Quer dar uma passada lá em casa? Não! É, já tarda mesmo. Com sono é? Tudo bem. Anota meu telefone. Tá sem caneta? Eu peço pro garçom... Ei, espera um pouco. Olha, se você mudar de idéia, meu nome tá na lista... Opa, peraí: será que nós já nos apresentamos?