Luiz Andrioli
Temos aí uma semana para o segundo turno. Aqui no Paraná quatro cidades continuam em campanha. Me atenho à Curitiba, onde vemos uma acirrada disputa entre PT (Ângelo Vanhoni) e PSDB (Beto Richa). Por legenda, algo parecido com São Paulo. Dentro destes últimos dias, alguns debates ainda devem distrair (ou seria melhor dizer “focar”) a atenção do eleitor. De minha parte, digo que estou cansado de bancadas, apresentador imparcial, terno e gravata, vinhetas, seriedade, sisudez... Quero algo além! Vamos fazer da política um grande entretenimento. Não estamos na tal “Sociedade do Espetáculo”? Incorporemos a idéia ao pleito, ora pois! Esta é a minha bandeira! Este é o meu voto!
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É interessante notar que um candidato só entra num debate cujas regras ele possa escolher. Tudo bem. Se eles só brincam no campinho que conhecem, o que podemos fazer? Só nos resta a arquibancada por detrás do morro mesmo. Mas quando se fala em segundo turno, isto tem um poder de veto. Ou seja, se não escolho as regras, não participo. E o debate pode não acontecer.
Caro eleitor, não se iluda. O debate que te é oferecido é o melhor dos mundos possíveis, parafraseando Cândido, de Voltaire. Possível sob o ponto de vista deles.
Como eu gostaria de ver ao menos um encontro em que eles viessem sem as armaduras (ops... ternos!) bem cortadas com gravatas combinando com o fundo do cenário.
Que tal um debate ao ar livre? Ah que grande estrago este ventinho faria em seus cabelos pré-moldados, hein?
Um cenário cercado por espelhos. Não, não se trata de feitiche... Assim as câmeras não esconderiam os bastidores, que neste jogo tem mais técnico do que jogador. Política também é jogo de títeres.
Como exercício de cidadania, coloco aqui três idéias de formato para debates. Não faço questão de receber jetom, royalties, comissão ou coisa que me traga dividendos pelo uso destas. São livres. Estarei em casa com um saco de pipoca e uma latinha gelada contando pontos e tentando fazer da minha opção algo diferente do voto nulo.
Trocadalho do Carilho
Eu quero um prefeito bem-humorado. Mas não um humorzinho simpático construído pela turma-que-sabe-muito-como-agradar. Quero piada! Quero ser surpreendido numa cerimônia de entrega de uma obra com uma tirada sobre o casaco verde do secretário de turismo, coisa pesada. Algo como:
Candidato 1: o tema é Fome Zero. Com um carregamento de dez quilos de arroz, sete de feijão e cinco de carne. Você acha que dá pra vinte comer?
Candidato 2: depende. Até porque setembro chove, não é? Mas falando sobre Responsabilidade Fiscal: a título de doação para o patrimônio público. O nobre candidato poderia me dizer se aceitaria quatro bicicletas na caixa, caso eu te desse também uma montada?
Aqui os candidatos mostrariam que bom humor por bom humor, vote no Didi Mocó pra prefeito e no Mr. Bean para vice. Em campanha de verdade, todo e qualquer sorriso busca fazer com mais dentes à mostra a pior imagem possível do adversário. É tudo na base do “Faça humor, faça a guerra”.
Cultura anos 80
Ambos os candidatos aqui da capital das araucárias estão ali pela faixa dos quarentão. Pois me interessa muito saber o que eles estavam fazendo há uns vinte anos, de que maneira eles enxergavam o mundo, quais filmes assistiram, programas de TV, discos... Enfim, que tipo de jovens foram. Impossível que alguém que fosse super-legal na faixa dos vinte não tenha virado uma boa pessoa no início dos “enta”. Imagino um animador de auditório como Celso Portioli. Se alguém quiser um toque mais intelectual despojado, Cazé Pessanha. Sugestões de perguntas:
- Qual era a cor do suspensório do Daniel Azulay?
Tudo bem, sei que eles não eram mais crianças, mas vale para dar um susto... Exercício de memória afetiva, praticamente...
- Você preferia escutar a turma do Kid Vinil (Magazine) ou era mais dado ao povo do Yahoo cantando “Amar, assim, é nunca dizer adeus”.
Este seria o ponto alto do debate. Ou seja: você era um cara irreverente, usava All Star vermelho, calças verdes, cabelo com descolorex ou era um mela-cueca que ficava lá nas festinhas esperando pela seqüência de lentas?
- Qual o ano em que a Magda Cotrofe posou para a Playboy?
Regra absoluta: não será aceita como resposta a seguinte frase: eu só leio as reportagens.
Neste formato daríamos asas para o passado privado se tornar público. Mães entrariam falando de suas coleções de gibis. Primos falariam dos torneios de bafo com as figurinhas das Balas Zequinha... Enfim, tudo o que pessoas normais sempre fizeram, mas para eles, atividades em nome do bem comum e que já mostravam os ideais políticos.
Tele-Ketch
“Hoje o duelo é de Titãs. De um lado, o peso do sindicalismo. Ele vem grande, vem com a estrela que comanda uma nação. De outro, a força tucana. Ele vem falando sereno, com a marca históóóóóóóóórica (algo como Galvão em Ronaaaaaldo) de um sobrenome”. Soa o gongo. “Olha lá, é impressionante! O lutador da estrela amarela não bate sozinho. Não basta ser amargo, ele quer azedar a luta. O juiz não vê! Ele esfrega limão nos olhos do oponente!”. Alguém na torcida grita “É limão transgênico?”. Em resposta o oponente grita buscando suas raízes paternas. “Pai, porque me abandonastes?”. E a rixa continua... “São os gigaaaaaaantes do ringue”, anuncia o locutor.
Quem venceria o debate? Aquele que soubesse que não basta ser o mais forte. As vezes é mais importante combinar a jogada com o adversário e cumprir o protocolo até soar o gongo.
