sexta-feira, setembro 16, 2005

UMA GUERRA POR UM PENTE

Oito de dezembro de 1959. Antonio Haroldo Tavares, subtenente da Polícia Militar compra um pente e pede uma nota fiscal. O comerciante, o sírio-libanês Ahmad Najar, se nega a emitir o documento, talvez pelo irrisório valor, quinze cruzeiros. O policial bate o pé em nome de seu direito (e dever) de contribuinte. Não era uma questão de valor financeiro, mas sim, de princípios! O clima de tensão contamina os quatro funcionários da loja que ajudam o patrão a jogar o “problema” porta fora. No entrave corporal, Antonio tem uma perna fraturada. Cerca de trinta pessoas que assistem a briga se revoltam e iniciam uma depredação do Bazar Centenário. Era o estopim para a Guerra do Pente – Talvez a maior revolta popular já vista na capital paranaense. Mas a real motivação para a “barbárie urbana” que estava por acontecer ultrapassava os limites curitibanos.

O Brasil vivia uma época esperançosa, pelo menos era o que dizia a propaganda oficial. Juscelino Kubitschek, com a promessa dos cinqüenta anos de progresso em cinco de governo, buscava convencer a população do desenvolvimentismo puxado pela industrialização. O governo promovia o consumo com olhos na arrecadação. O cidadão era incentivado a pedir notas-fiscais e trocá-las por cupons que davam direito a participações em sorteios de prêmios. A campanha “Seu Talão Vale um Milhão” era uma mania brasileira que virou até tema de marchinha de carnaval em 1960.

Mas nem tudo se resumia a confete e serpentina. Os altos índices de inflação preocupavam os pais de família. O momento também era de tensão política. Dias antes militares haviam iniciado um movimento contra o governo JK, conhecido como o Levante de Aragarças. O movimento se apagaria poucos dias depois, mas algo de instável permaneceria no ar.

Voltemos àquela terça-feira, fim de tarde em Curitiba. O Bazar Centenário está com o estoque jogado na rua. O movimento cresceu e já soma duzentas pessoas. Nesta altura ninguém mais se importa com o comerciante que foi levado preso pela polícia ou com o fardado que seguiu de ambulância para um hospital. A região da Praça Tiradentes, reduto de vários comércios de sírio-libaneses, vira um palco de vandalismo. Lojas são invadidas, saqueadas, queimadas... Quem tem tempo, baixa as portas. Quem não tem, luta sem sucesso contra uma massa ensandecida. A multidão ganha o reforço dos que saem de seus serviços. O ataque ao comércio já não é o suficiente, a ira cai sobre os prédios públicos. Mostrando o caráter anárquico do quebra-quebra, onde poucas regras são estabelecidas tampouco seguidas, os revoltosos atacam até os carrinhos dos vendedores ambulantes de frutas.

Somente seis horas depois a coisa começou a se acalmar em Curitiba. A Polícia Civil contabilizou dez feridos, ironicamente oito deles eram policiais. De populares, mais de trinta presos, alguns com objetos furtados. Correu a boca pequena que o “protesto” era coisa de estudantes. A União Paranaense dos Estudantes foi a público lavar as mãos, atitude endossada em editorial de um dos jornais da capital. O periódico trazia em sua opinião que os “cabeças das desordens” eram “desocupados ou operários”.

O segundo dia

Logo cedo, enquanto alguns ainda saboreavam as manchetes sensacionalistas do tumulto, uma agitação no centro da cidade anuncia o segundo dia da Guerra do Pente. O comerciante Salim Mattar, da Casa Três Irmãos, ao ver a onda de depredação se aproximando, sacou de um revolver disparando cinco tiros para cima. Uma tentativa desesperada já que nem mesmo os tanques do Exército que foram deslocados para o front deram conta de amedrontar a população. Alguém tenta aproveitar o embalo para destilar um discurso político, o que é de pronto repelido - por pouco não sobrou uns bons sopapos para os oradores de plantão. O momento era de ataque ao patrimônio, pura catarse... Nada de teoria! O tumulto só terminaria na chegada da noite. Como motivo algo bem curitibano: uma chuvinha típica de não deixar alma viva na rua.

Na quinta-feira, as análises colocavam mais polêmica sobre os reais motivos da Guerra do Pente. Alguém comparou a insurreição curitibana ao Levante de Aragarças. Um famoso criminalista da época creditou a violência ao alto custo de vida – um desabafo do povo. “O problema é fome”, sentenciava outro. O fato é que algo acontecera além da previsibilidade costumeira do curitibano naqueles dois dias. Um dos grandes jornais da capital paranaense trouxe na capa: reestabelecida a ordem e a tranqüilidade. Ironicamente, pouco acima da manchete um anúncio em letras garrafais continuava a afirmar que “Seu Talão Vale um Milhão”.

Texto originalmente publicado na revista “Aventuras na História”, edição 17, janeiro de 2005.

2 comentários:

Isis Brandão disse...

Vc é engraçado...

Anônimo disse...

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