segunda-feira, novembro 22, 2004

Da serie megalomania falada, escrita e televisionada

Entrevista ao Jô Soares

A platéia está um pouco fria. Uma série de cinco entrevistas com políticos, matemáticos e coisas do gênero deixou um silêncio no ar. Sou chamado. Batem palmas esparsas. Ah, no caso, sou um artista de rua, trabalho em Parati, viajo muito, faço pinturas que lembram as rupestres, mas uso como matéria prima resto de comida. Minha arte apodrece na casa das pessoas, diz o apresentador. Todos riem puxados pelo animador do auditório. Eu fui descoberto nos Estados Unidos após ter uma tela comprada pelo Spielberg.

Durante a entrevista, faço um ar displicente. Falo de minha relação com Jack Nicholson, Uma Thurman... Tudo na mais completa normalidade. Clientes que viraram amigos. Minha matéria prima para os quadros vem do próprio jantar (ou almoço) que compartilho com os clientes. As sobras me servem como a argila serviria para um escultor tradicional. O apresentador me diz que em seu caso não haveria obra de arte, já que não deixaria sobras. Eu digo que no caso a obra de arte pode ser ele, com a vantagem de poder disfarçar o cheirinho! Todos riem. Sucesso.

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Minha próxima será no Actor´s studio. Um ator que conseguiu a notoriedade após provar que as modernas técnicas de enriquecimento de urânio têm como base os fundamentos da memória emotiva descrita por Constantin Stanislavski. Um gênio que poderia usar o talento para a guerra nuclear, mas preferiu colocar seu talento em favor da interpretação. Dois filmes. O primeiro, ao estilo filme B com dificuldades de distribuição. O segundo, feito com um orçamento de cem mil dólares (o dobro do primeiro), mas que faturou trinta e cinco milhões (cem vezes mais que o primeiro). Digo que no momento meu principal projeto é comprar a coleção de Rolls Royces que pertenceu ao Bhagwan Shree Rajnesh. Todos dão cênicas gargalhadas. Eu digo: é sério. E é. Silêncio. Sucesso.



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