A DESELEGÂNCIA DISCRETA DA MENINA
Gosto da menina que não mostra as curvas, embora as tenha em proporção simétrica ao seu tamanho, uma pequena obra que só se nota o fino aroma quando atento. A menina não se dá a olhares displicentes, para quem o divide entre trânsito, comida, contas a pagar e receber. A menina pede mais. E na maioria das vezes recebe.
Ela não fica cansada, tem soninho!
É beleza que não se mostra na primeira entrevista, que não se expõem na ficha de cadastro, que tem mais caracteres do que os cabíveis no formulário. Se fosse para explicar, teria que ser em manuscrito, com caderno de caligrafia, fazendo aquela voltinha no “h” do charme, com uma perninha no “p” de perninha. Sim, porque a deselegância discreta vem no diminutivo, quase uma amostra do que se pode vir a conhecer... Discretamente.
Ela não come bolo, come bolinho!
Quando sorri – é possível de medir matematicamente – a boca se abre por exatamente um segundo, o pescoço se inclina um pouquinho para cima, como se a graça fosse dos céus, e fica aquele breve instante de silêncio. Após pode tanto vir um sorriso de simpatia quando uma gargalhada capaz de laurear a piada em questão. Ou não. E aí está o suspense, a imprevisibilidade discreta da menina.
Fala baixo, baixinho.
Se fosse uma música, não teria percussão. O compasso seria marcado por um instrumento de corda, a suavidade de um violino. Se fosse vento, pouparia as folhas. Se fosse tela, não teria moldura. Se fosse bailarina, não teria sapatilhas... Suave, pequena, discreta... Menina.
terça-feira, dezembro 28, 2004
domingo, dezembro 26, 2004
DA SÉRIE VIAGEM AO FUNDO EMOTIVO...
DE CÓCORAS...
Não lembro de tê-la visto sob a luz do sol. Para que chegássemos à sua casa era uma longa viagem, isto para os padrões de um piá que tinha a escola há dois quilômetros de casa e isto era tudo o que se deslocava diariamente. O cheiro era de borracha queimada, mas não tão forte quanto aquele da serra. Algo mais fraco, talvez um odor impregnado no bairro cheio de caminhoneiros que usam as calmas ruas sem manilhas para a manutenção de suas Scanias e Mercedes. A casa não tinha garagem e isto era um sinal de extrema pobreza ou de que as pessoas dali não precisavam ou não queriam ou não podiam ter um carro – tudo a mesma coisa para quem contava os passos naquele corredor (quarenta e dois) que desfilava por casas de madeira (seis), todas igualmente simples e cinzas.
O jardim tinha roseiras, mas elas nunca estavam floridas, ou pelo menos o apogeu das flores nunca coincidiu com as visitas da família ao local – se bem que o pai a visitava pelo menos duas vezes por semana, talvez mais nos últimos anos. Comigo e com a mãe, só nos fins de semana. Feriados, as vezes...
Tinha um forno de assar pão feito de concreto, cinza, cor de parede chapiscada, de muro pré-fabricado, com se tudo ali fosse concreto, uma obra de Nyemeier sem a genialidade nem a grandeza do mestre, sobrando apenas a aresta do criador – a frieza. Apesar do forno, o pão que nos esperava na mesa era do supermercado, das vezes que me lembro, trazido pelo pai em uma visita anterior talvez, mesma marca que o comido em casa.
O ambiente invariavelmente silencioso, com a impressão de que se não estivéssemos ali ninguém mais ousaria estar, até mesmo o vento, o sol, uma ligação telefônica, um quero-quero gralhando, enfim, tudo o que faz de uma casa um local com um sopro de vida, tudo se esqueceria de passar por ali e falar para aquela senhora de cabelos ruivos: ei, você ainda está na equipe Terra, ok? Levante uma mão ou acenda um fósforo caso concorde!
Na minha cabeça, mentalidade de uma criança ainda sem a malícia e a esperteza trazidas pelo conhecimento das letras, era algo de estranho visitar aquela senhora que não sentava em cadeiras. Olhando para aquela figura sizuda, rude, desprovida de qualquer infantilidade a quem me acostumaram a chamar de avó, não conseguia achar uma ligação entre ela e e meu pai. Ele com suas viagens e conquistas, com aquele fusca voltando toda a sexta feira repleto de barro e histórias para contar. Ela dentro de um contexto onde eu era obrigado a vestir roupa nova para sentar numa cadeira de palha velha e carcomida por cupins. Demorou para que em trechos de conversas a ligação entre “avó“e “mãe do meu pai” se fizesse clara e justificasse o pão com margarina de marca estranha, quando não, banha de cozinha, esta hoje me causa azia, mas na época era algo de diferente, uma fuga daquela conversa que beirava remédios (dela), reclamações (do meu pai sobre a vida, dela sobre os remédios), conselhos (dela sobre a vida, do meu pai sobre os remédios) e aquele chiadinho da TV velha e preta e branca que não sintonizava nada além das novelas tristes do canal que não era líder de audiência.
Pouco lhe herdei. Pouco ela me trouxe. Poucas vezes, imagino, ela tenha me segurado no colo quando criança. Talvez ela tenha até feito isto com os netos, mas na medida exata do permitido quando se tem onze filhos e sendo que cada um trouxe quatro ou cinco outros para o mundo. Apenas o constante quebrar das costas das cadeiras da minha casa atribuo àquela senhora de voz rouca, de cabelo ruim e ruivo – conseqüências da mania de ficar de cócoras, mesmo à frente do computador ou quando o bem estar social permita. Desta maneira ela recebia a todos em casa. Empoleirada em uma banqueta mais alta que as demais, como um “xamã”, mas cerca de oitenta centímetros acima do solo, quase a altura da mesa. Dali ela falava pouco, mas naquela áspera de quem trazia a boa educação na mesma medida da vigilância e da punição, do olhar que fazia aqueles filhos pedreiros, entregadores, comerciantes, alguns torneiros que se tornariam professores, todos muito abaixo de qualquer possibilidade de contrariar qualquer ordem da senhora cujo nome foi escrito errado pelo cartorário. Se assim fosse decretado, em situações onde a economia da casa pedisse, o salário de todos deveria ser confiado a ela. E por vezes foi. Ninguém reclamava, ninguém contrariava.
Ainda guardo em alguma gaveta os únicos presentes que ganhei dela. Não foram comprados para mim. São dois cavalinhos de plástico e um pequeno boi azul. Cabem na palma da mão. Na pata do boi dá pra ler a marca de uma indústria de leite. Talvez alguém tenha dado uma bandeja de iogurte (porque não imagino ela comprando algo assim, algo além do que se encontra numa cesta básica) pra ela e isto deve ter coincidido com uma das visitas nossas a sua casa, e eu devia estar agitado ou correndo demais, e a TV devia estar mais estragada que o normal, talvez somando com uma chuva... Enfim, por algum motivo que tenha passado aquém dos reais motivos que levam uma pessoa a presentear alguém, os dois cavalinhos e o boi “tudo azul” vieram para mim.
Lembro-me com menos de dez anos vendo uma agitação anormal aqui em casa, um telefone tocando de madrugada, vozes cochichadas, eu de pijama deduzindo pelos olhares, pelas roupas escuras pegas às pressas, que alguém tinha morrido. Há poucos dias tínhamos a visitado no Hospital e o tom do médico (amigo de longa data de meu pai) era de extrema seriedade. Voltei para o quarto e procurei os cavalinhos e o boizinho. Estava triste, de alguma maneira aquilo me afetava, me dizia que os próximos dias seriam de voz baixa, de televisão desligada, de missa, de ver gente que há tempos não se via, de cheiro de flor... Olhei para os brinquedos e chorei baixinho dentro daquele pequeno mundo que era o meu quarto, tudo tinha ficado cinza de repente, das roupas aos jogos e carrinhos, dos livros da escola às estrelas fosforescentes do teto... Triste já era lembrar daquela figura de cócoras com vestidos escuros, triste era saber de toda a tristeza que ainda estava por vir... Triste era pela primeira vez conhecer a morte tendo nas mãos brinquedos tristes...
Não lembro de tê-la visto sob a luz do sol. Para que chegássemos à sua casa era uma longa viagem, isto para os padrões de um piá que tinha a escola há dois quilômetros de casa e isto era tudo o que se deslocava diariamente. O cheiro era de borracha queimada, mas não tão forte quanto aquele da serra. Algo mais fraco, talvez um odor impregnado no bairro cheio de caminhoneiros que usam as calmas ruas sem manilhas para a manutenção de suas Scanias e Mercedes. A casa não tinha garagem e isto era um sinal de extrema pobreza ou de que as pessoas dali não precisavam ou não queriam ou não podiam ter um carro – tudo a mesma coisa para quem contava os passos naquele corredor (quarenta e dois) que desfilava por casas de madeira (seis), todas igualmente simples e cinzas.
O jardim tinha roseiras, mas elas nunca estavam floridas, ou pelo menos o apogeu das flores nunca coincidiu com as visitas da família ao local – se bem que o pai a visitava pelo menos duas vezes por semana, talvez mais nos últimos anos. Comigo e com a mãe, só nos fins de semana. Feriados, as vezes...
Tinha um forno de assar pão feito de concreto, cinza, cor de parede chapiscada, de muro pré-fabricado, com se tudo ali fosse concreto, uma obra de Nyemeier sem a genialidade nem a grandeza do mestre, sobrando apenas a aresta do criador – a frieza. Apesar do forno, o pão que nos esperava na mesa era do supermercado, das vezes que me lembro, trazido pelo pai em uma visita anterior talvez, mesma marca que o comido em casa.
O ambiente invariavelmente silencioso, com a impressão de que se não estivéssemos ali ninguém mais ousaria estar, até mesmo o vento, o sol, uma ligação telefônica, um quero-quero gralhando, enfim, tudo o que faz de uma casa um local com um sopro de vida, tudo se esqueceria de passar por ali e falar para aquela senhora de cabelos ruivos: ei, você ainda está na equipe Terra, ok? Levante uma mão ou acenda um fósforo caso concorde!
Na minha cabeça, mentalidade de uma criança ainda sem a malícia e a esperteza trazidas pelo conhecimento das letras, era algo de estranho visitar aquela senhora que não sentava em cadeiras. Olhando para aquela figura sizuda, rude, desprovida de qualquer infantilidade a quem me acostumaram a chamar de avó, não conseguia achar uma ligação entre ela e e meu pai. Ele com suas viagens e conquistas, com aquele fusca voltando toda a sexta feira repleto de barro e histórias para contar. Ela dentro de um contexto onde eu era obrigado a vestir roupa nova para sentar numa cadeira de palha velha e carcomida por cupins. Demorou para que em trechos de conversas a ligação entre “avó“e “mãe do meu pai” se fizesse clara e justificasse o pão com margarina de marca estranha, quando não, banha de cozinha, esta hoje me causa azia, mas na época era algo de diferente, uma fuga daquela conversa que beirava remédios (dela), reclamações (do meu pai sobre a vida, dela sobre os remédios), conselhos (dela sobre a vida, do meu pai sobre os remédios) e aquele chiadinho da TV velha e preta e branca que não sintonizava nada além das novelas tristes do canal que não era líder de audiência.
Pouco lhe herdei. Pouco ela me trouxe. Poucas vezes, imagino, ela tenha me segurado no colo quando criança. Talvez ela tenha até feito isto com os netos, mas na medida exata do permitido quando se tem onze filhos e sendo que cada um trouxe quatro ou cinco outros para o mundo. Apenas o constante quebrar das costas das cadeiras da minha casa atribuo àquela senhora de voz rouca, de cabelo ruim e ruivo – conseqüências da mania de ficar de cócoras, mesmo à frente do computador ou quando o bem estar social permita. Desta maneira ela recebia a todos em casa. Empoleirada em uma banqueta mais alta que as demais, como um “xamã”, mas cerca de oitenta centímetros acima do solo, quase a altura da mesa. Dali ela falava pouco, mas naquela áspera de quem trazia a boa educação na mesma medida da vigilância e da punição, do olhar que fazia aqueles filhos pedreiros, entregadores, comerciantes, alguns torneiros que se tornariam professores, todos muito abaixo de qualquer possibilidade de contrariar qualquer ordem da senhora cujo nome foi escrito errado pelo cartorário. Se assim fosse decretado, em situações onde a economia da casa pedisse, o salário de todos deveria ser confiado a ela. E por vezes foi. Ninguém reclamava, ninguém contrariava.
Ainda guardo em alguma gaveta os únicos presentes que ganhei dela. Não foram comprados para mim. São dois cavalinhos de plástico e um pequeno boi azul. Cabem na palma da mão. Na pata do boi dá pra ler a marca de uma indústria de leite. Talvez alguém tenha dado uma bandeja de iogurte (porque não imagino ela comprando algo assim, algo além do que se encontra numa cesta básica) pra ela e isto deve ter coincidido com uma das visitas nossas a sua casa, e eu devia estar agitado ou correndo demais, e a TV devia estar mais estragada que o normal, talvez somando com uma chuva... Enfim, por algum motivo que tenha passado aquém dos reais motivos que levam uma pessoa a presentear alguém, os dois cavalinhos e o boi “tudo azul” vieram para mim.
Lembro-me com menos de dez anos vendo uma agitação anormal aqui em casa, um telefone tocando de madrugada, vozes cochichadas, eu de pijama deduzindo pelos olhares, pelas roupas escuras pegas às pressas, que alguém tinha morrido. Há poucos dias tínhamos a visitado no Hospital e o tom do médico (amigo de longa data de meu pai) era de extrema seriedade. Voltei para o quarto e procurei os cavalinhos e o boizinho. Estava triste, de alguma maneira aquilo me afetava, me dizia que os próximos dias seriam de voz baixa, de televisão desligada, de missa, de ver gente que há tempos não se via, de cheiro de flor... Olhei para os brinquedos e chorei baixinho dentro daquele pequeno mundo que era o meu quarto, tudo tinha ficado cinza de repente, das roupas aos jogos e carrinhos, dos livros da escola às estrelas fosforescentes do teto... Triste já era lembrar daquela figura de cócoras com vestidos escuros, triste era saber de toda a tristeza que ainda estava por vir... Triste era pela primeira vez conhecer a morte tendo nas mãos brinquedos tristes...
segunda-feira, novembro 22, 2004
Da serie megalomania falada, escrita e televisionada
Entrevista ao Jô Soares
A platéia está um pouco fria. Uma série de cinco entrevistas com políticos, matemáticos e coisas do gênero deixou um silêncio no ar. Sou chamado. Batem palmas esparsas. Ah, no caso, sou um artista de rua, trabalho em Parati, viajo muito, faço pinturas que lembram as rupestres, mas uso como matéria prima resto de comida. Minha arte apodrece na casa das pessoas, diz o apresentador. Todos riem puxados pelo animador do auditório. Eu fui descoberto nos Estados Unidos após ter uma tela comprada pelo Spielberg.
Durante a entrevista, faço um ar displicente. Falo de minha relação com Jack Nicholson, Uma Thurman... Tudo na mais completa normalidade. Clientes que viraram amigos. Minha matéria prima para os quadros vem do próprio jantar (ou almoço) que compartilho com os clientes. As sobras me servem como a argila serviria para um escultor tradicional. O apresentador me diz que em seu caso não haveria obra de arte, já que não deixaria sobras. Eu digo que no caso a obra de arte pode ser ele, com a vantagem de poder disfarçar o cheirinho! Todos riem. Sucesso.
***
Minha próxima será no Actor´s studio. Um ator que conseguiu a notoriedade após provar que as modernas técnicas de enriquecimento de urânio têm como base os fundamentos da memória emotiva descrita por Constantin Stanislavski. Um gênio que poderia usar o talento para a guerra nuclear, mas preferiu colocar seu talento em favor da interpretação. Dois filmes. O primeiro, ao estilo filme B com dificuldades de distribuição. O segundo, feito com um orçamento de cem mil dólares (o dobro do primeiro), mas que faturou trinta e cinco milhões (cem vezes mais que o primeiro). Digo que no momento meu principal projeto é comprar a coleção de Rolls Royces que pertenceu ao Bhagwan Shree Rajnesh. Todos dão cênicas gargalhadas. Eu digo: é sério. E é. Silêncio. Sucesso.
A platéia está um pouco fria. Uma série de cinco entrevistas com políticos, matemáticos e coisas do gênero deixou um silêncio no ar. Sou chamado. Batem palmas esparsas. Ah, no caso, sou um artista de rua, trabalho em Parati, viajo muito, faço pinturas que lembram as rupestres, mas uso como matéria prima resto de comida. Minha arte apodrece na casa das pessoas, diz o apresentador. Todos riem puxados pelo animador do auditório. Eu fui descoberto nos Estados Unidos após ter uma tela comprada pelo Spielberg.
Durante a entrevista, faço um ar displicente. Falo de minha relação com Jack Nicholson, Uma Thurman... Tudo na mais completa normalidade. Clientes que viraram amigos. Minha matéria prima para os quadros vem do próprio jantar (ou almoço) que compartilho com os clientes. As sobras me servem como a argila serviria para um escultor tradicional. O apresentador me diz que em seu caso não haveria obra de arte, já que não deixaria sobras. Eu digo que no caso a obra de arte pode ser ele, com a vantagem de poder disfarçar o cheirinho! Todos riem. Sucesso.
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Minha próxima será no Actor´s studio. Um ator que conseguiu a notoriedade após provar que as modernas técnicas de enriquecimento de urânio têm como base os fundamentos da memória emotiva descrita por Constantin Stanislavski. Um gênio que poderia usar o talento para a guerra nuclear, mas preferiu colocar seu talento em favor da interpretação. Dois filmes. O primeiro, ao estilo filme B com dificuldades de distribuição. O segundo, feito com um orçamento de cem mil dólares (o dobro do primeiro), mas que faturou trinta e cinco milhões (cem vezes mais que o primeiro). Digo que no momento meu principal projeto é comprar a coleção de Rolls Royces que pertenceu ao Bhagwan Shree Rajnesh. Todos dão cênicas gargalhadas. Eu digo: é sério. E é. Silêncio. Sucesso.
domingo, novembro 14, 2004
FOLHA SECA
Tão rápido quanto um beijo roubado no corredor da escola. Ih, era pecado?
Quando nós jornalistas fomos julgados por nossos erros, teremos a maior sentença dada pelo nosso maior pecado – ironicamente um pecado que achamos ser a nossa maior qualidade: a velocidade.
De tão discreto, quase nem foi percebido...
Este texto é aqui publicado quase três semanas depois do ocorrido com o jogador Serginho por um simples motivo: precisamos raciocinar, pensar sobre o que falamos, refletir antes de jogar perguntas, questionamentos tolos no ar.
Sou um profissional de televisão. No meu ideal de viver o jornalismo, penso que a apuração não deve ser feita on line, tal qual um Big Brother jornalístico.
Apenas uma comparação: alguém aqui ta muito interessado em saber todo o processo de estudo e desenvolvimento até se chegar na sandália Havaiana perfeita? Eu não! Eu quero o produto pronto e que ele atenda às minhas necessidades, no caso, sem cheiro e que não soltem as tiras. E pronto.
Quanto ao jornalismo, eu me envergonho quando vejo que somos obrigados a fazer uma apuração ao vivo, deixando o telespectador se aborrecer como toda a parte chata de levantar informações. Penso que o público merece a melhor informação, vinda da melhor pesquisa, das melhores perguntas, feitas pelos melhores profissionais. Mas que o produto venha acabado, sólido, com responsabilidade. Nada de manter uma foto trágica estampada ao fundo da transmissão enquanto repórteres alucinados tentam a todo o custo manter entrevistados falando coisas inconsistentes apenas em nome de uma mórbida audiência. Isto é abrir a porta de um processo de produção que pouco acrescenta para o desenvolvimento de um pensamento crítico.
Impossível aqui não lembrar do grande repórter de televisão (Rede Paranaense de Comunicação) Sandro Dalpícolo. Alguém lhe perguntou: escuta, você está ao vivo numa transmissão de um evento e o apresentador do estúdio te pergunta algo que você não sabe. O que fazer? “Grande pergunta, eu diria ao “âncora”, daqui a pouco eu volto com a resposta!”.
Foi uma piada, brincadeira entre colegas que no caso se encontraram numa transmissão ao vivo onde muita coisa é apurada aos olhos do telespectador. Mas uma sábia brincadeira. Voltemos apenas quando tivermos o que falar! Pausa para o comercial, ou melhor, para a apuração. Melhor ainda, para o raciocínio!
Nós somos a bola
Pergunto ao médico cardiologista Constantino Constantini:
- Sabemos que os jogadores de hoje correm muito mais do que os que fizeram carreira há uns vinte, trinta, quarenta anos. Isto não pode ser uma sobrecarga para os atletas? O corpo humano está preparado para tamanho esforço?
Constantini é argentino, tem as sobrancelhas grossas, um rosto forte e uma fala convicta. Dono de uma grande clínica em Curitiba, tratou do artilheiro Washington do Atlético Paranaense, que tantas alegrias tem nos dado. O jogador teve um problema no coração e precisou passar por algumas intervenções cirúrgicas. Constantini discorda da minha “tese”.
- Os jogadores de hoje são extremamente bem preparados fisicamente. Podem agüentar este esforço que realmente é muito maior que o de outrora. Mas o que existe de fato é um fator estresse nos atletas, tal qual encontramos em executivos, empresários e outros trabalhadores que vivem uma rotina estressante. Se somar o fator estresse ao esforço físico, aí sim temos uma situação de risco.
A referência do médico é quanto à rotina dos jogadores, com calendários maçantes, competições desenfreadas, viagens atrás de viagens, distância da família, compromissos com os patrocinadores... Enfim, todos os acessórios periféricos ao futebol.
Esta periferia imposta ao jogador não é uma exclusividade da profissão que é um sonho talvez da maioria das crianças. Quantos de nós somos obrigados a conviver com uma profissão que precisa agregar dezenas de atividades absolutamente aborrecedoras? Para um dentista, a luta para comprar bons equipamentos. Para um professor, a dificuldade de se achar bons livros. Para um jornalista, a saga de conciliar um trabalho com outros bicos. Enfim, a lista iria longe. Já escutei de um amigo algo mais ou menos assim: minha profissão é ótima. Ruim é que tem uns “carinhas” que insistem em atrapalhar!
Serginho morreu na noite do dia 27 de outubro de 2004. Ele já tinha um problema que dava lá uma chance mínima a mais de sofrer um problema cardíaco. Mas, seguindo no pensamento do médico Consantini, trazia vários fatores agregados de risco. Vinha de família pobre, batalhou pela sobrevivência, do futebol fazia o sustento dos seus. Como a grande maioria dos nossos contemporâneos que dividem o espaço neste terceiro mundo globalizado, Serginho também corria pra viver.
Parafraseando Peninha, quando o meu mundo era mais mundo, existiu um jogador chamado Didi. Ele ficou conhecido pela sua genial jogada batizada de “folha seca”. Uma licença poética aplicada ao futebol, um golpe certeiro que fazia da bola uma dançarina imprevisível, um chute de efeito que fazia o goleiro olhar para o vulto e não se aperceber da bola - bailando tal qual folha seca ao vento. Didi corria pouco. “Quem corre é a bola”, dizia. Hoje a bola somos nós. E dá-lhe tomar chute!
Quando nós jornalistas fomos julgados por nossos erros, teremos a maior sentença dada pelo nosso maior pecado – ironicamente um pecado que achamos ser a nossa maior qualidade: a velocidade.
De tão discreto, quase nem foi percebido...
Este texto é aqui publicado quase três semanas depois do ocorrido com o jogador Serginho por um simples motivo: precisamos raciocinar, pensar sobre o que falamos, refletir antes de jogar perguntas, questionamentos tolos no ar.
Sou um profissional de televisão. No meu ideal de viver o jornalismo, penso que a apuração não deve ser feita on line, tal qual um Big Brother jornalístico.
Apenas uma comparação: alguém aqui ta muito interessado em saber todo o processo de estudo e desenvolvimento até se chegar na sandália Havaiana perfeita? Eu não! Eu quero o produto pronto e que ele atenda às minhas necessidades, no caso, sem cheiro e que não soltem as tiras. E pronto.
Quanto ao jornalismo, eu me envergonho quando vejo que somos obrigados a fazer uma apuração ao vivo, deixando o telespectador se aborrecer como toda a parte chata de levantar informações. Penso que o público merece a melhor informação, vinda da melhor pesquisa, das melhores perguntas, feitas pelos melhores profissionais. Mas que o produto venha acabado, sólido, com responsabilidade. Nada de manter uma foto trágica estampada ao fundo da transmissão enquanto repórteres alucinados tentam a todo o custo manter entrevistados falando coisas inconsistentes apenas em nome de uma mórbida audiência. Isto é abrir a porta de um processo de produção que pouco acrescenta para o desenvolvimento de um pensamento crítico.
Impossível aqui não lembrar do grande repórter de televisão (Rede Paranaense de Comunicação) Sandro Dalpícolo. Alguém lhe perguntou: escuta, você está ao vivo numa transmissão de um evento e o apresentador do estúdio te pergunta algo que você não sabe. O que fazer? “Grande pergunta, eu diria ao “âncora”, daqui a pouco eu volto com a resposta!”.
Foi uma piada, brincadeira entre colegas que no caso se encontraram numa transmissão ao vivo onde muita coisa é apurada aos olhos do telespectador. Mas uma sábia brincadeira. Voltemos apenas quando tivermos o que falar! Pausa para o comercial, ou melhor, para a apuração. Melhor ainda, para o raciocínio!
Nós somos a bola
Pergunto ao médico cardiologista Constantino Constantini:
- Sabemos que os jogadores de hoje correm muito mais do que os que fizeram carreira há uns vinte, trinta, quarenta anos. Isto não pode ser uma sobrecarga para os atletas? O corpo humano está preparado para tamanho esforço?
Constantini é argentino, tem as sobrancelhas grossas, um rosto forte e uma fala convicta. Dono de uma grande clínica em Curitiba, tratou do artilheiro Washington do Atlético Paranaense, que tantas alegrias tem nos dado. O jogador teve um problema no coração e precisou passar por algumas intervenções cirúrgicas. Constantini discorda da minha “tese”.
- Os jogadores de hoje são extremamente bem preparados fisicamente. Podem agüentar este esforço que realmente é muito maior que o de outrora. Mas o que existe de fato é um fator estresse nos atletas, tal qual encontramos em executivos, empresários e outros trabalhadores que vivem uma rotina estressante. Se somar o fator estresse ao esforço físico, aí sim temos uma situação de risco.
A referência do médico é quanto à rotina dos jogadores, com calendários maçantes, competições desenfreadas, viagens atrás de viagens, distância da família, compromissos com os patrocinadores... Enfim, todos os acessórios periféricos ao futebol.
Esta periferia imposta ao jogador não é uma exclusividade da profissão que é um sonho talvez da maioria das crianças. Quantos de nós somos obrigados a conviver com uma profissão que precisa agregar dezenas de atividades absolutamente aborrecedoras? Para um dentista, a luta para comprar bons equipamentos. Para um professor, a dificuldade de se achar bons livros. Para um jornalista, a saga de conciliar um trabalho com outros bicos. Enfim, a lista iria longe. Já escutei de um amigo algo mais ou menos assim: minha profissão é ótima. Ruim é que tem uns “carinhas” que insistem em atrapalhar!
Serginho morreu na noite do dia 27 de outubro de 2004. Ele já tinha um problema que dava lá uma chance mínima a mais de sofrer um problema cardíaco. Mas, seguindo no pensamento do médico Consantini, trazia vários fatores agregados de risco. Vinha de família pobre, batalhou pela sobrevivência, do futebol fazia o sustento dos seus. Como a grande maioria dos nossos contemporâneos que dividem o espaço neste terceiro mundo globalizado, Serginho também corria pra viver.
Parafraseando Peninha, quando o meu mundo era mais mundo, existiu um jogador chamado Didi. Ele ficou conhecido pela sua genial jogada batizada de “folha seca”. Uma licença poética aplicada ao futebol, um golpe certeiro que fazia da bola uma dançarina imprevisível, um chute de efeito que fazia o goleiro olhar para o vulto e não se aperceber da bola - bailando tal qual folha seca ao vento. Didi corria pouco. “Quem corre é a bola”, dizia. Hoje a bola somos nós. E dá-lhe tomar chute!
segunda-feira, novembro 08, 2004
ESTOU EM BUSCA DA ATUALIZAÇÃO PERFEITA
Eu fui às profundezas da Terra buscar a perfeição em termos de atualização. Volto em breve. Aliás, volte em breve!
Luiz
Luiz
domingo, outubro 24, 2004
DEBATES NA TV
DEBATE NA CARA DE QUEM?
Luiz Andrioli
Temos aí uma semana para o segundo turno. Aqui no Paraná quatro cidades continuam em campanha. Me atenho à Curitiba, onde vemos uma acirrada disputa entre PT (Ângelo Vanhoni) e PSDB (Beto Richa). Por legenda, algo parecido com São Paulo. Dentro destes últimos dias, alguns debates ainda devem distrair (ou seria melhor dizer “focar”) a atenção do eleitor. De minha parte, digo que estou cansado de bancadas, apresentador imparcial, terno e gravata, vinhetas, seriedade, sisudez... Quero algo além! Vamos fazer da política um grande entretenimento. Não estamos na tal “Sociedade do Espetáculo”? Incorporemos a idéia ao pleito, ora pois! Esta é a minha bandeira! Este é o meu voto!
***
É interessante notar que um candidato só entra num debate cujas regras ele possa escolher. Tudo bem. Se eles só brincam no campinho que conhecem, o que podemos fazer? Só nos resta a arquibancada por detrás do morro mesmo. Mas quando se fala em segundo turno, isto tem um poder de veto. Ou seja, se não escolho as regras, não participo. E o debate pode não acontecer.
Caro eleitor, não se iluda. O debate que te é oferecido é o melhor dos mundos possíveis, parafraseando Cândido, de Voltaire. Possível sob o ponto de vista deles.
Como eu gostaria de ver ao menos um encontro em que eles viessem sem as armaduras (ops... ternos!) bem cortadas com gravatas combinando com o fundo do cenário.
Que tal um debate ao ar livre? Ah que grande estrago este ventinho faria em seus cabelos pré-moldados, hein?
Um cenário cercado por espelhos. Não, não se trata de feitiche... Assim as câmeras não esconderiam os bastidores, que neste jogo tem mais técnico do que jogador. Política também é jogo de títeres.
Como exercício de cidadania, coloco aqui três idéias de formato para debates. Não faço questão de receber jetom, royalties, comissão ou coisa que me traga dividendos pelo uso destas. São livres. Estarei em casa com um saco de pipoca e uma latinha gelada contando pontos e tentando fazer da minha opção algo diferente do voto nulo.
Trocadalho do Carilho
Eu quero um prefeito bem-humorado. Mas não um humorzinho simpático construído pela turma-que-sabe-muito-como-agradar. Quero piada! Quero ser surpreendido numa cerimônia de entrega de uma obra com uma tirada sobre o casaco verde do secretário de turismo, coisa pesada. Algo como:
Candidato 1: o tema é Fome Zero. Com um carregamento de dez quilos de arroz, sete de feijão e cinco de carne. Você acha que dá pra vinte comer?
Candidato 2: depende. Até porque setembro chove, não é? Mas falando sobre Responsabilidade Fiscal: a título de doação para o patrimônio público. O nobre candidato poderia me dizer se aceitaria quatro bicicletas na caixa, caso eu te desse também uma montada?
Aqui os candidatos mostrariam que bom humor por bom humor, vote no Didi Mocó pra prefeito e no Mr. Bean para vice. Em campanha de verdade, todo e qualquer sorriso busca fazer com mais dentes à mostra a pior imagem possível do adversário. É tudo na base do “Faça humor, faça a guerra”.
Cultura anos 80
Ambos os candidatos aqui da capital das araucárias estão ali pela faixa dos quarentão. Pois me interessa muito saber o que eles estavam fazendo há uns vinte anos, de que maneira eles enxergavam o mundo, quais filmes assistiram, programas de TV, discos... Enfim, que tipo de jovens foram. Impossível que alguém que fosse super-legal na faixa dos vinte não tenha virado uma boa pessoa no início dos “enta”. Imagino um animador de auditório como Celso Portioli. Se alguém quiser um toque mais intelectual despojado, Cazé Pessanha. Sugestões de perguntas:
- Qual era a cor do suspensório do Daniel Azulay?
Tudo bem, sei que eles não eram mais crianças, mas vale para dar um susto... Exercício de memória afetiva, praticamente...
- Você preferia escutar a turma do Kid Vinil (Magazine) ou era mais dado ao povo do Yahoo cantando “Amar, assim, é nunca dizer adeus”.
Este seria o ponto alto do debate. Ou seja: você era um cara irreverente, usava All Star vermelho, calças verdes, cabelo com descolorex ou era um mela-cueca que ficava lá nas festinhas esperando pela seqüência de lentas?
- Qual o ano em que a Magda Cotrofe posou para a Playboy?
Regra absoluta: não será aceita como resposta a seguinte frase: eu só leio as reportagens.
Neste formato daríamos asas para o passado privado se tornar público. Mães entrariam falando de suas coleções de gibis. Primos falariam dos torneios de bafo com as figurinhas das Balas Zequinha... Enfim, tudo o que pessoas normais sempre fizeram, mas para eles, atividades em nome do bem comum e que já mostravam os ideais políticos.
Tele-Ketch
“Hoje o duelo é de Titãs. De um lado, o peso do sindicalismo. Ele vem grande, vem com a estrela que comanda uma nação. De outro, a força tucana. Ele vem falando sereno, com a marca históóóóóóóóórica (algo como Galvão em Ronaaaaaldo) de um sobrenome”. Soa o gongo. “Olha lá, é impressionante! O lutador da estrela amarela não bate sozinho. Não basta ser amargo, ele quer azedar a luta. O juiz não vê! Ele esfrega limão nos olhos do oponente!”. Alguém na torcida grita “É limão transgênico?”. Em resposta o oponente grita buscando suas raízes paternas. “Pai, porque me abandonastes?”. E a rixa continua... “São os gigaaaaaaantes do ringue”, anuncia o locutor.
Quem venceria o debate? Aquele que soubesse que não basta ser o mais forte. As vezes é mais importante combinar a jogada com o adversário e cumprir o protocolo até soar o gongo.
Luiz Andrioli
Temos aí uma semana para o segundo turno. Aqui no Paraná quatro cidades continuam em campanha. Me atenho à Curitiba, onde vemos uma acirrada disputa entre PT (Ângelo Vanhoni) e PSDB (Beto Richa). Por legenda, algo parecido com São Paulo. Dentro destes últimos dias, alguns debates ainda devem distrair (ou seria melhor dizer “focar”) a atenção do eleitor. De minha parte, digo que estou cansado de bancadas, apresentador imparcial, terno e gravata, vinhetas, seriedade, sisudez... Quero algo além! Vamos fazer da política um grande entretenimento. Não estamos na tal “Sociedade do Espetáculo”? Incorporemos a idéia ao pleito, ora pois! Esta é a minha bandeira! Este é o meu voto!
***
É interessante notar que um candidato só entra num debate cujas regras ele possa escolher. Tudo bem. Se eles só brincam no campinho que conhecem, o que podemos fazer? Só nos resta a arquibancada por detrás do morro mesmo. Mas quando se fala em segundo turno, isto tem um poder de veto. Ou seja, se não escolho as regras, não participo. E o debate pode não acontecer.
Caro eleitor, não se iluda. O debate que te é oferecido é o melhor dos mundos possíveis, parafraseando Cândido, de Voltaire. Possível sob o ponto de vista deles.
Como eu gostaria de ver ao menos um encontro em que eles viessem sem as armaduras (ops... ternos!) bem cortadas com gravatas combinando com o fundo do cenário.
Que tal um debate ao ar livre? Ah que grande estrago este ventinho faria em seus cabelos pré-moldados, hein?
Um cenário cercado por espelhos. Não, não se trata de feitiche... Assim as câmeras não esconderiam os bastidores, que neste jogo tem mais técnico do que jogador. Política também é jogo de títeres.
Como exercício de cidadania, coloco aqui três idéias de formato para debates. Não faço questão de receber jetom, royalties, comissão ou coisa que me traga dividendos pelo uso destas. São livres. Estarei em casa com um saco de pipoca e uma latinha gelada contando pontos e tentando fazer da minha opção algo diferente do voto nulo.
Trocadalho do Carilho
Eu quero um prefeito bem-humorado. Mas não um humorzinho simpático construído pela turma-que-sabe-muito-como-agradar. Quero piada! Quero ser surpreendido numa cerimônia de entrega de uma obra com uma tirada sobre o casaco verde do secretário de turismo, coisa pesada. Algo como:
Candidato 1: o tema é Fome Zero. Com um carregamento de dez quilos de arroz, sete de feijão e cinco de carne. Você acha que dá pra vinte comer?
Candidato 2: depende. Até porque setembro chove, não é? Mas falando sobre Responsabilidade Fiscal: a título de doação para o patrimônio público. O nobre candidato poderia me dizer se aceitaria quatro bicicletas na caixa, caso eu te desse também uma montada?
Aqui os candidatos mostrariam que bom humor por bom humor, vote no Didi Mocó pra prefeito e no Mr. Bean para vice. Em campanha de verdade, todo e qualquer sorriso busca fazer com mais dentes à mostra a pior imagem possível do adversário. É tudo na base do “Faça humor, faça a guerra”.
Cultura anos 80
Ambos os candidatos aqui da capital das araucárias estão ali pela faixa dos quarentão. Pois me interessa muito saber o que eles estavam fazendo há uns vinte anos, de que maneira eles enxergavam o mundo, quais filmes assistiram, programas de TV, discos... Enfim, que tipo de jovens foram. Impossível que alguém que fosse super-legal na faixa dos vinte não tenha virado uma boa pessoa no início dos “enta”. Imagino um animador de auditório como Celso Portioli. Se alguém quiser um toque mais intelectual despojado, Cazé Pessanha. Sugestões de perguntas:
- Qual era a cor do suspensório do Daniel Azulay?
Tudo bem, sei que eles não eram mais crianças, mas vale para dar um susto... Exercício de memória afetiva, praticamente...
- Você preferia escutar a turma do Kid Vinil (Magazine) ou era mais dado ao povo do Yahoo cantando “Amar, assim, é nunca dizer adeus”.
Este seria o ponto alto do debate. Ou seja: você era um cara irreverente, usava All Star vermelho, calças verdes, cabelo com descolorex ou era um mela-cueca que ficava lá nas festinhas esperando pela seqüência de lentas?
- Qual o ano em que a Magda Cotrofe posou para a Playboy?
Regra absoluta: não será aceita como resposta a seguinte frase: eu só leio as reportagens.
Neste formato daríamos asas para o passado privado se tornar público. Mães entrariam falando de suas coleções de gibis. Primos falariam dos torneios de bafo com as figurinhas das Balas Zequinha... Enfim, tudo o que pessoas normais sempre fizeram, mas para eles, atividades em nome do bem comum e que já mostravam os ideais políticos.
Tele-Ketch
“Hoje o duelo é de Titãs. De um lado, o peso do sindicalismo. Ele vem grande, vem com a estrela que comanda uma nação. De outro, a força tucana. Ele vem falando sereno, com a marca históóóóóóóóórica (algo como Galvão em Ronaaaaaldo) de um sobrenome”. Soa o gongo. “Olha lá, é impressionante! O lutador da estrela amarela não bate sozinho. Não basta ser amargo, ele quer azedar a luta. O juiz não vê! Ele esfrega limão nos olhos do oponente!”. Alguém na torcida grita “É limão transgênico?”. Em resposta o oponente grita buscando suas raízes paternas. “Pai, porque me abandonastes?”. E a rixa continua... “São os gigaaaaaaantes do ringue”, anuncia o locutor.
Quem venceria o debate? Aquele que soubesse que não basta ser o mais forte. As vezes é mais importante combinar a jogada com o adversário e cumprir o protocolo até soar o gongo.
sábado, outubro 23, 2004
ESTAMOS AINDA EM FASE DE TESTES
Salve simpatia...
Ainda tô naquela fase de conhecer os serviços aqui da casa. Sabe como é, né? Analisa o garçom, dá aquela olhada na louça por entre a luz, espia a cozinha... Enquanto isto, nada de produção nova. Segue mais um da lavra antiga. A inspiração poderia estar neste sábado de chuva em Curitiba...
Cordiais saudações
DIAS DE CHUVA
No grupo Escolar Santa Rosa
Não tinha pátio coberto para os dias de chuva
Quando chovia as crianças ficavam sem recreação
Marcelo, cabelo crespo castanho, gostava dos dias de chuva
Ao acordar contava as nuvens
“Pai, qual é a previsão do tempo?”
Melissa, menina das bochechas rosadas, tinha uma certa atração por dias chuvosos
Ouvia atentamente o que a tia Francisca falava
No dia da pátria
Marcelo desenhou numa folha de caderno a bandeira do Brasil
E entregou para Melissa
Ela devolveu o desenho
Com um coração que desenhou atrás
Nos dias de chuva, as crianças ficavam tristes
E sem recreação
Melissa e Marcelo, olhavam para a janela, sorrindo
A chuva caindo na beira da calha
Um dia um trovão assustou a todos
de imediato Melissa segurou a mão de Marcelo
Que sorriu enrubescido
Tia Francisco olhava os dois tão atentamente saudosa
Pensando que passara a vida inteira
Procurando alguém que com ela olhasse a chuva cair na calha.
Ainda tô naquela fase de conhecer os serviços aqui da casa. Sabe como é, né? Analisa o garçom, dá aquela olhada na louça por entre a luz, espia a cozinha... Enquanto isto, nada de produção nova. Segue mais um da lavra antiga. A inspiração poderia estar neste sábado de chuva em Curitiba...
Cordiais saudações
DIAS DE CHUVA
No grupo Escolar Santa Rosa
Não tinha pátio coberto para os dias de chuva
Quando chovia as crianças ficavam sem recreação
Marcelo, cabelo crespo castanho, gostava dos dias de chuva
Ao acordar contava as nuvens
“Pai, qual é a previsão do tempo?”
Melissa, menina das bochechas rosadas, tinha uma certa atração por dias chuvosos
Ouvia atentamente o que a tia Francisca falava
No dia da pátria
Marcelo desenhou numa folha de caderno a bandeira do Brasil
E entregou para Melissa
Ela devolveu o desenho
Com um coração que desenhou atrás
Nos dias de chuva, as crianças ficavam tristes
E sem recreação
Melissa e Marcelo, olhavam para a janela, sorrindo
A chuva caindo na beira da calha
Um dia um trovão assustou a todos
de imediato Melissa segurou a mão de Marcelo
Que sorriu enrubescido
Tia Francisco olhava os dois tão atentamente saudosa
Pensando que passara a vida inteira
Procurando alguém que com ela olhasse a chuva cair na calha.
quinta-feira, outubro 21, 2004
CHEGANDO POR AQUI
A CHAVE
Minha mãe tinha a chave de casa. Ela sempre levava a chave presa numa daquelas argolinhas, enroscada no zíper da bolsa. Meu pai nunca teve a chave de casa... É que a minha mãe sempre chegava em casa antes, porque ela não trabalhava. Não que ela não trabalhasse assim, digo, de não fazer nada. Ela fazia crochê... Ou era tricô? Você sabe a diferença de um e outro? Ah, claro, são as agulhas né? Mas um dia minha mãe chegou mais tarde em casa. Não, não foi por maldade, antes que você pense mal da minha mãe. Eu estava em casa sim. Mas a porta lá de casa é daquelas que só abre com a chave, sabe? Daí o motivo de eu não ter aberto a porta pro meu pai. Só que ele não sabe pular a janela, e além do mais ele achou mais fácil sair pelo bairro procurando a minha mãe. É, pelo bairro. É que a minha mãe sempre morou no bairro, nem o centro conhecia. Então meu pai achou que seria mais fácil procurar a minha mãe do que pular a janela, até porque ele estava de calça jeans. Mas isto tudo ele falou gritando, para que eu pudesse escutar através da porta fechada.
Tem gente que passa a vida inteira procurando alguma coisa, né? É, eu também acho profundo, foi o pastor que falou na TV, naqueles programas que passam de madrugada, em qual canal que foi mesmo? Ah, deixa pra lá. Mas a vida do meu pai foi assim, a partir daquele dia, imagino eu. Digo imagino porque imagino mesmo, porque eu nunca mais falei com ele. Também nunca mais falei com a minha mãe, mas isto nem me faz muita falta. É que eu sempre fui muito mais meu pai, sabe. É, eu sei que você deve ter notado... Identificação, né? Por isso que eu também não tinha chave nem bolsa para pendurar ela. Bem diferente da minha mãe, né?
Mas para encurtar a história, é por isso que eu moro sozinho já faz uns quatro anos. Acho que um dia eles podem voltar, mas certamente não vai ser hoje... É, eu tenho este pressentimento.
Então... Você quer dar uma passada lá em casa? Não, nem se preocupe. Você nem precisa pular a janela. Ó, é segredo hein!!! Só para você que eu conto: na verdade, a porta estava aberta naquela dia. Eu só tava brincando com meu pai... Engraçado né?? Por isso que eu nunca mais precisei da minha mãe, nem da chave...
Quer dar uma passada lá em casa? Não! É, já tarda mesmo. Com sono é? Tudo bem. Anota meu telefone. Tá sem caneta? Eu peço pro garçom... Ei, espera um pouco. Olha, se você mudar de idéia, meu nome tá na lista... Opa, peraí: será que nós já nos apresentamos?
Minha mãe tinha a chave de casa. Ela sempre levava a chave presa numa daquelas argolinhas, enroscada no zíper da bolsa. Meu pai nunca teve a chave de casa... É que a minha mãe sempre chegava em casa antes, porque ela não trabalhava. Não que ela não trabalhasse assim, digo, de não fazer nada. Ela fazia crochê... Ou era tricô? Você sabe a diferença de um e outro? Ah, claro, são as agulhas né? Mas um dia minha mãe chegou mais tarde em casa. Não, não foi por maldade, antes que você pense mal da minha mãe. Eu estava em casa sim. Mas a porta lá de casa é daquelas que só abre com a chave, sabe? Daí o motivo de eu não ter aberto a porta pro meu pai. Só que ele não sabe pular a janela, e além do mais ele achou mais fácil sair pelo bairro procurando a minha mãe. É, pelo bairro. É que a minha mãe sempre morou no bairro, nem o centro conhecia. Então meu pai achou que seria mais fácil procurar a minha mãe do que pular a janela, até porque ele estava de calça jeans. Mas isto tudo ele falou gritando, para que eu pudesse escutar através da porta fechada.
Tem gente que passa a vida inteira procurando alguma coisa, né? É, eu também acho profundo, foi o pastor que falou na TV, naqueles programas que passam de madrugada, em qual canal que foi mesmo? Ah, deixa pra lá. Mas a vida do meu pai foi assim, a partir daquele dia, imagino eu. Digo imagino porque imagino mesmo, porque eu nunca mais falei com ele. Também nunca mais falei com a minha mãe, mas isto nem me faz muita falta. É que eu sempre fui muito mais meu pai, sabe. É, eu sei que você deve ter notado... Identificação, né? Por isso que eu também não tinha chave nem bolsa para pendurar ela. Bem diferente da minha mãe, né?
Mas para encurtar a história, é por isso que eu moro sozinho já faz uns quatro anos. Acho que um dia eles podem voltar, mas certamente não vai ser hoje... É, eu tenho este pressentimento.
Então... Você quer dar uma passada lá em casa? Não, nem se preocupe. Você nem precisa pular a janela. Ó, é segredo hein!!! Só para você que eu conto: na verdade, a porta estava aberta naquela dia. Eu só tava brincando com meu pai... Engraçado né?? Por isso que eu nunca mais precisei da minha mãe, nem da chave...
Quer dar uma passada lá em casa? Não! É, já tarda mesmo. Com sono é? Tudo bem. Anota meu telefone. Tá sem caneta? Eu peço pro garçom... Ei, espera um pouco. Olha, se você mudar de idéia, meu nome tá na lista... Opa, peraí: será que nós já nos apresentamos?
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