Domingo, Dezembro 26, 2004

DA SÉRIE VIAGEM AO FUNDO EMOTIVO...

DE CÓCORAS...

Não lembro de tê-la visto sob a luz do sol. Para que chegássemos à sua casa era uma longa viagem, isto para os padrões de um piá que tinha a escola há dois quilômetros de casa e isto era tudo o que se deslocava diariamente. O cheiro era de borracha queimada, mas não tão forte quanto aquele da serra. Algo mais fraco, talvez um odor impregnado no bairro cheio de caminhoneiros que usam as calmas ruas sem manilhas para a manutenção de suas Scanias e Mercedes. A casa não tinha garagem e isto era um sinal de extrema pobreza ou de que as pessoas dali não precisavam ou não queriam ou não podiam ter um carro – tudo a mesma coisa para quem contava os passos naquele corredor (quarenta e dois) que desfilava por casas de madeira (seis), todas igualmente simples e cinzas.

O jardim tinha roseiras, mas elas nunca estavam floridas, ou pelo menos o apogeu das flores nunca coincidiu com as visitas da família ao local – se bem que o pai a visitava pelo menos duas vezes por semana, talvez mais nos últimos anos. Comigo e com a mãe, só nos fins de semana. Feriados, as vezes...

Tinha um forno de assar pão feito de concreto, cinza, cor de parede chapiscada, de muro pré-fabricado, com se tudo ali fosse concreto, uma obra de Nyemeier sem a genialidade nem a grandeza do mestre, sobrando apenas a aresta do criador – a frieza. Apesar do forno, o pão que nos esperava na mesa era do supermercado, das vezes que me lembro, trazido pelo pai em uma visita anterior talvez, mesma marca que o comido em casa.

O ambiente invariavelmente silencioso, com a impressão de que se não estivéssemos ali ninguém mais ousaria estar, até mesmo o vento, o sol, uma ligação telefônica, um quero-quero gralhando, enfim, tudo o que faz de uma casa um local com um sopro de vida, tudo se esqueceria de passar por ali e falar para aquela senhora de cabelos ruivos: ei, você ainda está na equipe Terra, ok? Levante uma mão ou acenda um fósforo caso concorde!

Na minha cabeça, mentalidade de uma criança ainda sem a malícia e a esperteza trazidas pelo conhecimento das letras, era algo de estranho visitar aquela senhora que não sentava em cadeiras. Olhando para aquela figura sizuda, rude, desprovida de qualquer infantilidade a quem me acostumaram a chamar de avó, não conseguia achar uma ligação entre ela e e meu pai. Ele com suas viagens e conquistas, com aquele fusca voltando toda a sexta feira repleto de barro e histórias para contar. Ela dentro de um contexto onde eu era obrigado a vestir roupa nova para sentar numa cadeira de palha velha e carcomida por cupins. Demorou para que em trechos de conversas a ligação entre “avó“e “mãe do meu pai” se fizesse clara e justificasse o pão com margarina de marca estranha, quando não, banha de cozinha, esta hoje me causa azia, mas na época era algo de diferente, uma fuga daquela conversa que beirava remédios (dela), reclamações (do meu pai sobre a vida, dela sobre os remédios), conselhos (dela sobre a vida, do meu pai sobre os remédios) e aquele chiadinho da TV velha e preta e branca que não sintonizava nada além das novelas tristes do canal que não era líder de audiência.

Pouco lhe herdei. Pouco ela me trouxe. Poucas vezes, imagino, ela tenha me segurado no colo quando criança. Talvez ela tenha até feito isto com os netos, mas na medida exata do permitido quando se tem onze filhos e sendo que cada um trouxe quatro ou cinco outros para o mundo. Apenas o constante quebrar das costas das cadeiras da minha casa atribuo àquela senhora de voz rouca, de cabelo ruim e ruivo – conseqüências da mania de ficar de cócoras, mesmo à frente do computador ou quando o bem estar social permita. Desta maneira ela recebia a todos em casa. Empoleirada em uma banqueta mais alta que as demais, como um “xamã”, mas cerca de oitenta centímetros acima do solo, quase a altura da mesa. Dali ela falava pouco, mas naquela áspera de quem trazia a boa educação na mesma medida da vigilância e da punição, do olhar que fazia aqueles filhos pedreiros, entregadores, comerciantes, alguns torneiros que se tornariam professores, todos muito abaixo de qualquer possibilidade de contrariar qualquer ordem da senhora cujo nome foi escrito errado pelo cartorário. Se assim fosse decretado, em situações onde a economia da casa pedisse, o salário de todos deveria ser confiado a ela. E por vezes foi. Ninguém reclamava, ninguém contrariava.

Ainda guardo em alguma gaveta os únicos presentes que ganhei dela. Não foram comprados para mim. São dois cavalinhos de plástico e um pequeno boi azul. Cabem na palma da mão. Na pata do boi dá pra ler a marca de uma indústria de leite. Talvez alguém tenha dado uma bandeja de iogurte (porque não imagino ela comprando algo assim, algo além do que se encontra numa cesta básica) pra ela e isto deve ter coincidido com uma das visitas nossas a sua casa, e eu devia estar agitado ou correndo demais, e a TV devia estar mais estragada que o normal, talvez somando com uma chuva... Enfim, por algum motivo que tenha passado aquém dos reais motivos que levam uma pessoa a presentear alguém, os dois cavalinhos e o boi “tudo azul” vieram para mim.

Lembro-me com menos de dez anos vendo uma agitação anormal aqui em casa, um telefone tocando de madrugada, vozes cochichadas, eu de pijama deduzindo pelos olhares, pelas roupas escuras pegas às pressas, que alguém tinha morrido. Há poucos dias tínhamos a visitado no Hospital e o tom do médico (amigo de longa data de meu pai) era de extrema seriedade. Voltei para o quarto e procurei os cavalinhos e o boizinho. Estava triste, de alguma maneira aquilo me afetava, me dizia que os próximos dias seriam de voz baixa, de televisão desligada, de missa, de ver gente que há tempos não se via, de cheiro de flor... Olhei para os brinquedos e chorei baixinho dentro daquele pequeno mundo que era o meu quarto, tudo tinha ficado cinza de repente, das roupas aos jogos e carrinhos, dos livros da escola às estrelas fosforescentes do teto... Triste já era lembrar daquela figura de cócoras com vestidos escuros, triste era saber de toda a tristeza que ainda estava por vir... Triste era pela primeira vez conhecer a morte tendo nas mãos brinquedos tristes...


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